Poucas situações na medicina pediátrica exigem tanta agilidade quanto a perda auditiva na infância. O motivo é biológico: o sistema nervoso central tem uma janela de plasticidade, um período em que os neurônios auditivos formam conexões em resposta à estimulação sonora. Depois que essa janela se fecha, o cérebro não é mais capaz de aprender a processar som da mesma forma, independentemente da qualidade do aparelho ou da cirurgia realizada.
Por isso, a identificação precoce e o tratamento imediato são a diferença entre uma criança que desenvolve linguagem oral plena e frequenta escola regular, e uma criança com atraso permanente no desenvolvimento comunicativo. A Dra. Mariana Castro Denaro, otorrinolaringologista especialista em otologia e implante coclear, coordena o Serviço de Saúde Auditiva e Implante Coclear do HC/UFMG em Belo Horizonte e atende crianças com perda auditiva no consultório do Santa Efigênia.
A janela crítica do desenvolvimento auditivo: por que o tempo importa tanto
O sistema auditivo central de um bebê está em formação ativa nos primeiros anos de vida. Neurônios da cóclea até o córtex auditivo primário precisam de estimulação sonora constante para desenvolver conexões sinápticas estáveis. A plasticidade neuronal é máxima até os 3,5 anos e vai diminuindo progressivamente, após os 7 anos, os resultados de reabilitação são significativamente menores mesmo com tecnologia avançada.
- 0 a 6 meses: período ideal para diagnóstico, possibilitado pela triagem neonatal universal (teste da orelhinha).
- 6 a 12 meses: período ideal para adaptação do aparelho auditivo. A estimulação durante esse período tem impacto direto no desenvolvimento de balbucio, percepção de fala e vinculação afetiva por sons.
- 12 a 24 meses: período ideal para implante coclear em crianças com surdez profunda que não se beneficiam do aparelho. Resultados de linguagem comparáveis a ouvintes são frequentemente alcançados quando a cirurgia ocorre nessa faixa.
- Após 3 anos: ainda há benefício significativo com intervenção, mas os resultados de linguagem oral são mais variáveis e a reabilitação é mais longa e intensa.
| Idade | Marco esperado | Sinal de alerta (precisa avaliar) |
|---|---|---|
| 0–3 meses | Pula ou para de chorar com sons altos; vira a cabeça para sons laterais | Não se assusta com palmas, porta batendo ou campainha |
| 3–6 meses | Busca visualmente a fonte sonora; balbucia com vogais | Não localiza sons; não emite balbucios ("agugú") |
| 6–12 meses | Responde ao próprio nome; imita sons e ritmos simples | Não responde ao nome; não imita sons; não balbucia |
| 12–24 meses | Diz 1–20 palavras; aponta para objetivos conhecidos quando nomeados | Nenhuma palavra com significado aos 12 meses; não junta duas palavras aos 24 meses |
| 2–3 anos | Fala frases simples; segue comandos de 2 etapas | Fala pouco compreensível; aumenta muito o volume da TV; pede para repetir |
Triagem auditiva neonatal: o teste da orelhinha
A Triagem Auditiva Neonatal Universal (TANU) é obrigatória no Brasil desde a Lei Federal 12.303/2010. Deve ser realizada nas primeiras 48 horas de vida, antes da alta hospitalar. O objetivo é identificar precocemente perdas auditivas significativas antes que comprometam o desenvolvimento.
- EOA, Emissão Otoacústica Evocada: exame padrão para recém-nascidos de baixo risco. Avalia a função das células ciliadas externas da cóclea por meio de sons emitidos em um pequeno fone inserido no canal auditivo. É rápido (menos de 5 minutos), indolor e não exige sedação.
- BERA, Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico: recomendado para recém-nascidos de risco (prematuridade abaixo de 34 semanas, anóxia perinatal, uso de aminoglicosídeos na UTI, CMV congênito, histórico familiar de surdez). Avalia toda a via auditiva desde a cóclea até o tronco encefálico, sendo mais sensível para perdas auditivas neurais e de surgimento tardio.
Importante: um resultado "passa" na triagem neonatal não exclui perdas auditivas que surgem após o nascimento, especialmente aquelas associadas ao CMV congênito, que pode causar perda progressiva nos primeiros 2 anos de vida. Por isso, atenção contínua aos marcos de desenvolvimento auditivo é fundamental mesmo após uma triagem normal.
Causas de perda auditiva em crianças
Conhecer a causa da surdez é importante não apenas para o tratamento, mas para o aconselhamento genético da família e para prevenir recorrências em irmãos:
- Causas genéticas (50% das surdez congênita): a mutação no gene GJB2 (conexina 26) é a mais frequente em populações ocidentais. A maioria dos casos é autossômica recessiva, os pais têm audição normal e carregam o gene sem manifestação clínica. O teste genético identifica a mutação e guia o prognóstico.
- CMV congênito: o citomegalovírus é a infecção congênita não genética mais comum associada à surdez neurossensorial. A criança pode parecer ouvir normalmente ao nascer e desenvolver perda progressiva nos primeiros 2 anos. Mães com primo-infecção por CMV na gestação devem ser alertadas. Tratamento com antiviral (valganciclovir) pode reduzir a progressão auditiva quando iniciado precocemente.
- Prematuridade e anóxia perinatal: recém-nascidos de muito baixo peso e aqueles que sofreram asfixia ao nascer têm risco aumentado de perda auditiva neurossensorial e de neuropatia auditiva. Exigem follow-up audiológico rigoroso nos primeiros 2 anos.
- Rubéola, toxoplasmose e sífilis congênita: prevenidas pelo pré-natal adequado. Ainda ocorrem em contextos de vulnerabilidade social.
- Meningite bacteriana: causa surdez profunda súbita por ossificação da cóclea, urgência absoluta para avaliação de implante coclear, pois a janela para cirurgia se fecha à medida que a cóclea ossifica. Vacinação contra Haemophilus influenzae e Streptococcus pneumoniae é a principal prevenção.
- Otites médias recorrentes com efusão (OME): causa mais comum de perda auditiva condutiva em crianças. O líquido no ouvido médio prejudica a condução do som e pode causar atraso na fala quando persistente. Tratada com drenagem transtimpânica e, quando indicado, adenoidectomia.
- Ototoxicidade: aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina) usados em UTI neonatal podem lesar as células ciliadas da cóclea. Monitoramento auditivo durante o tratamento é essencial.
Diagnóstico audiológico em crianças: quais exames são feitos
A avaliação audiológica pediátrica é adaptada à idade da criança, diferente do adulto, o bebê e a criança pequena não respondem a instruções verbais convencionais:
- BERA (ABR, Auditory Brainstem Response): exame objetivo que não depende da cooperação da criança. Registra a atividade elétrica do nervo auditivo e do tronco encefálico em resposta a sons. Realizado durante o sono natural (lactentes) ou sob sedação leve (crianças maiores). Permite determinar a intensidade mínima de resposta e estimar o grau de perda auditiva.
- ASSR (Auditory Steady-State Response): exame que permite estimar os limiares auditivos por frequência de forma objetiva. Complementa o BERA para planejamento de adaptação de aparelho auditivo e indicação de implante coclear.
- EOA, Emissão Otoacústica Evocada: avalia a integridade das células ciliadas externas. Útil para triagem e para diagnóstico diferencial de neuropatia auditiva (EOA presente + BERA alterado).
- Audiometria comportamental: a partir dos 6-8 meses, é possível realizar audiometria por reforço visual (VRA); a partir dos 2-3 anos, audiometria lúdica (a criança realiza uma tarefa quando ouve o som). A partir dos 4-5 anos, audiometria tonal convencional.
- Imitanciometria: avalia a função do ouvido médio e o reflexo estapediano.
- Tomografia e ressonância da cóclea: essenciais no pré-operatório de implante coclear para avaliar a anatomia do ouvido interno, a presença de cóclea ossificada e a perviedade do nervo auditivo.
Tratamento: aparelho auditivo, implante coclear e DTT
O tratamento é definido pelo grau, tipo e causa da perda auditiva:
- Aparelho auditivo (AASI): indicado para perdas auditivas de leve a moderada-severa. A adaptação deve ser feita preferencialmente antes dos 6 meses de vida. O aparelho amplifica os sons e estimula as vias auditivas durante o período crítico de plasticidade. Deve ser usado durante todas as horas de vigília, sem exceções.
- Implante coclear: indicado para surdez neurossensorial severa a profunda bilateral que não se beneficia do aparelho auditivo. O dispositivo converte sons em sinais elétricos que estimulam diretamente o nervo auditivo, contornando as células ciliadas danificadas. A parte interna é cirúrgica (receptor e eletrodos na cóclea); a parte externa (processador de fala) é usada externamente, como um aparelho. A Dra. Mariana Castro Denaro realiza implante coclear em crianças em Belo Horizonte e coordena o programa no HC/UFMG.
- DTT (Drenagem Transtimpânica): para otite média com efusão persistente. Remove o líquido do ouvido médio e melhora a audição por condução, favorecendo o desenvolvimento da linguagem oral.
- Reabilitação fonoaudiológica: indispensável em todos os casos. O aparelho ou o implante fornece o sinal acústico, mas o cérebro precisa aprender a interpretar esse sinal, e isso acontece por meio de estimulação auditiva e oral estruturada com fonoaudiólogo especializado em saúde auditiva infantil.
O papel da família no sucesso do tratamento
O comprometimento da família é o fator que mais influencia o resultado da reabilitação auditiva infantil. As ações mais importantes são:
- Manter o aparelho auditivo ou o processador de fala do implante em uso durante toda a vigília da criança, inclusive em casa
- Falar diretamente para a criança, com rosto visível e em ambiente com baixo ruído de fundo
- Nomear sons do ambiente, música, voz, animais, eletrodomésticos, para construir memória auditiva
- Ler histórias em voz alta diariamente, mesmo que a criança ainda não responda verbalmente
- Manter a agenda de consultas com a Dra. Mariana e com a fonoaudióloga regularmente
- Não comparar o desenvolvimento do filho com o de crianças ouvintes, cada criança tem um ritmo próprio dentro da sua trajetória auditiva
Famílias bem orientadas e engajadas são, comprovadamente, o principal fator prognóstico de desenvolvimento de linguagem oral em crianças com surdez, acima da tecnologia, da cirurgia e do momento da intervenção.
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Agende a avaliação auditiva do seu filho em Belo Horizonte
Se você percebe algum sinal de alerta auditivo no seu filho, se ele falhou no teste da orelhinha ou se você tem dúvida sobre o desenvolvimento da linguagem, não adie a avaliação. A Dra. Mariana Castro Denaro atende crianças com perda auditiva no consultório do Santa Efigênia, Rua Padre Rolim, 515, 8º andar, Belo Horizonte. O atendimento é particular e os custos de próteses e cirurgia podem ser cobertos por plano de saúde.
Agendar pelo WhatsAppPerguntas frequentes
O teste da orelhinha é obrigatório?
Sim. A Triagem Auditiva Neonatal Universal, popularmente chamada 'teste da orelhinha', é obrigatória por lei no Brasil desde 2010 (Lei Federal 12.303). Deve ser realizada nas primeiras 48 horas de vida, antes da alta hospitalar. O exame padrão é a Emissão Otoacústica Evocada (EOA), que testa a função das células ciliadas externas da cóclea. Recém-nascidos de risco (prematuridade, anóxia, CMV congênito, histórico familiar de surdez, uso de ototóxicos na UTI) devem fazer também o BERA (Potencial Evocado Auditivo de Tronco Encefálico). O resultado 'passa' não garante audição perfeita ao longo da vida, existem perdas auditivas de surgimento tardio que não são detectadas no período neonatal.
Quais são os sinais de alerta de surdez em bebês e crianças?
Em bebês: não se assusta com sons altos (palma, porta batendo) ao nascimento; não vira a cabeça na direção de sons aos 3-4 meses; não balbucia ('agugú') aos 6 meses; não responde ao próprio nome aos 8-10 meses; não fala nenhuma palavra com significado aos 12 meses; não junta duas palavras aos 24 meses. Em crianças maiores: pede para repetir com frequência; aumenta muito o volume da TV; tem dificuldade de concentração escolar; prefere gestos à fala; tem atraso na leitura e escrita. Qualquer desses sinais justifica avaliação audiológica imediata, não espere a próxima consulta de rotina.
Quais são as causas mais comuns de surdez em crianças?
As causas se dividem em congênitas (presentes desde o nascimento) e adquiridas (surgem depois). Entre as congênitas, as causas genéticas são as mais frequentes, respondem por cerca de 50% dos casos de surdez congênita, sendo a maioria por herança autossômica recessiva (mutações no gene Cx26/GJB2). Infecções congênitas também são importantes: o CMV (citomegalovírus) é a infecção congênita não genética mais comum associada à surdez sensorioneural, podendo causar perda auditiva de surgimento tardio mesmo quando a criança parece ouvir bem ao nascer. Outras causas congênitas: rubéola, toxoplasmose, sífilis, prematuridade extrema e anóxia perinatal. Entre as causas adquiridas: meningite bacteriana (causa surdez profunda rápida, urgência para implante coclear), caxumba, ototoxicidade por aminoglicosídeos e otites médias recorrentes com efusão.
Quando o implante coclear é indicado em crianças?
O implante coclear é indicado para crianças com surdez neurossensorial severa a profunda bilateral que não se beneficiam suficientemente do aparelho auditivo convencional. A indicação ideal é antes dos 12 a 24 meses de vida, quanto mais cedo, melhores os resultados em linguagem. A avaliação inclui: audiometria (BERA, ASSR), tomografia computadorizada e ressonância da cóclea, avaliação fonoaudiológica e psicológica, e período de adaptação com aparelho auditivo como teste. Crianças operadas antes dos 2 anos com reabilitação adequada têm grande chance de desenvolver fala e linguagem comparáveis às de crianças ouvintes, frequentar escola regular e ter vida social plena. A Dra. Mariana Castro Denaro é especialista em implante coclear em crianças e coordena o Serviço de Saúde Auditiva e Implante Coclear do HC/UFMG em Belo Horizonte.
O aparelho auditivo deve ser usado o tempo todo?
Sim, durante todas as horas de vigília da criança. Esta é a orientação da Sociedade Brasileira de Audiologia e da American Academy of Audiology: para que o aparelho auditivo ou o implante coclear gerem desenvolvimento de linguagem oral, o cérebro precisa de estimulação auditiva constante durante o período em que a criança está acordada. Tirar o aparelho porque 'ela não gosta' ou porque 'está dormindo' é um dos erros mais comuns e prejudiciais. Estratégias para manter o uso incluem: adaptação progressiva, chapéus e acessórios de fixação e reforço positivo.
O SUS cobre implante coclear e aparelho auditivo?
Sim. O SUS oferece aparelhos auditivos e implante coclear por meio do Programa de Saúde Auditiva do Ministério da Saúde, com serviços credenciados em todo o país. Em Belo Horizonte, o HC/UFMG é um dos centros de referência. O processo envolve triagem audiológica, laudos médicos e fonoaudiológicos e autorização pela Secretaria de Saúde. O atendimento privado com a Dra. Mariana no consultório da Rua Padre Rolim permite avaliação ágil e planejamento cirúrgico, e os custos hospitalares e de próteses podem ser cobertos por plano de saúde conforme cobertura contratada.
Fontes e referências
As informações desta página têm finalidade educativa e não substituem consulta médica, diagnóstico individualizado ou atendimento de urgência e emergência. Consulte sempre um profissional de saúde habilitado.

