Imagine acordar aos 25 anos percebendo que não está mais ouvindo bem, principalmente em ambientes barulhentos. Ou notar que precisa pedir para as pessoas repetirem o que disseram com frequência crescente. E que sua mãe, ou sua avó, passou pelo mesmo. A otosclerose tem exatamente essa apresentação: perda auditiva progressiva no adulto jovem, frequentemente com história familiar, e um tímpano completamente normal ao exame. É uma doença silenciosa e frequentemente confundida com estresse, distração ou envelhecimento precoce, até que os exames específicos revelam o diagnóstico.
A boa notícia é que a otosclerose tem um dos melhores tratamentos em toda a otologia: a estapedectomia. Uma cirurgia de aproximadamente 1 a 2 horas que substitui o estribo fixo por uma prótese microscópica, e restaura a audição em mais de 90% dos casos, em mãos experientes. Em Belo Horizonte, a Dra. Mariana Castro Denaro realiza esse procedimento com técnica cirúrgica aprimorada em mais de 20 anos de prática otológica, incluindo fellowship na Fundação FISH (Suíça).
O estribo: o menor osso do corpo e o protagonista da otosclerose
O ouvido médio contém três ossículos, os menores ossos do corpo humano: o martelo (que se apoia no tímpano), a bigorna (que conecta martelo ao estribo) e o estribo. O estribo tem a forma de um estribo de montaria e se apoia na janela oval, abertura que separa o ouvido médio do ouvido interno (cóclea).
Quando o tímpano vibra com o som, essa vibração é transmitida em cadeia: tímpano → martelo → bigorna → estribo → janela oval → fluido da cóclea → células ciliadas que convertem vibração em sinal elétrico para o cérebro. Se o estribo está fixo, ancorado ao redor da janela oval pelo osso esponjoso anormal da otosclerose, a vibração não chega ao ouvido interno, e o resultado é perda auditiva.
O processo da otosclerose pode ficar limitado ao estribo (otosclerose fenestral) ou avançar para a cóclea (otosclerose coclear), comprometendo também as células ciliadas do ouvido interno, o que gera componente neurossensorial de tratamento mais difícil. Por isso, operar no momento adequado, antes que a cóclea seja comprometida, é fundamental.
Perfil típico do paciente com otosclerose
- Idade de início: tipicamente entre 20 e 40 anos, fase produtiva da vida, o que torna o impacto ainda maior.
- Sexo: mais comum em mulheres, com proporção de aproximadamente 2:1 em relação aos homens.
- História familiar: presente em 25 a 40% dos casos. A transmissão é autossômica dominante com penetrância de cerca de 25%, o que explica por que nem todos os familiares são afetados.
- Bilateralidade: em 70 a 80% dos casos, ambos os ouvidos são afetados, embora geralmente de forma assimétrica, com um ouvido mais comprometido que o outro.
- Gestação: os estrogênios podem acelerar o processo de remodelação óssea anormal, o que explica a piora da perda auditiva durante e após a gravidez em mulheres com otosclerose.
- Zumbido associado: presente em 50 a 60% dos casos, geralmente de caráter grave (frequência baixa), e pode melhorar ou desaparecer após a estapedectomia bem-sucedida.
Diagnóstico: os exames que revelam a otosclerose
O diagnóstico da otosclerose é uma combinação de clínica e exames complementares, uma vez que a otoscopia, exame do tímpano, é completamente normal nesses pacientes.
- Audiometria tonal liminar: revela perda auditiva de condução (gap aéreo-ósseo) nas frequências médias, com presença do sinal de Carhart, queda específica na condução óssea em 2000 Hz que desaparece após a cirurgia, confirmando sua natureza mecânica.
- Imitanciometria: curva timpanométrica As (compliance baixa, mesmo com pressão correta) e ausência de reflexos acústicos ipsi e contralateral. A combinação de audiometria com gap e reflexos ausentes é altamente sugestiva de otosclerose ou outro problema ossicular.
- Tomografia computadorizada dos ossos temporais: nos casos iniciais, pode mostrar halo duplo ao redor da janela oval (sinal de Schwartze radiológico), confirmando desmineralização ativa. Também avalia anatomia para planejamento cirúrgico.
- Sinal de Schwartze clínico: em doença ativa, pode-se ver através do tímpano translúcido uma coloração avermelhada (eritema) sobre o promontório, sinal de hipervascularização do foco otosclerótico. Raro, mas patognomônico quando presente.
A estapedectomia: como é a cirurgia
A estapedectomia (ou estapedotomia, na variante moderna) é realizada sob anestesia geral ou local com sedação, com duração de 1 a 2 horas. O acesso ao ouvido médio é feito pelo canal auditivo, geralmente sem qualquer incisão externa visível.
| Aspecto | Estapedectomia clássica | Estapedotomia (técnica moderna) |
|---|---|---|
| Abordagem ao estribo | Remoção completa da platina | Pequena fenestra na platina, preservando a estrutura |
| Prótese | Apoiada sobre enxerto de gordura ou fáscia | Inserida no orifício e fixada à bigorna |
| Preservação da anatomia | Menor | Maior |
| Uso atual | Menos frequente | Técnica preferida atualmente |
As etapas principais do procedimento:
- Elevação do tímpano: o cirurgião levanta cuidadosamente a membrana timpânica para acessar o ouvido médio.
- Confirmação da fixação: o estribo é testado, a ausência de mobilidade confirma o diagnóstico intraoperatório.
- Secção dos ramos do estribo: os dois "pés" do estribo são cortados com laser de CO₂ ou micro-instrumentos.
- Remoção da superestrutura: o corpo e os ramos do estribo são removidos, deixando apenas a platina (base que se apoia na janela oval).
- Fenestração da platina (estapedotomia): com laser ou microperfurador, cria-se um orifício preciso na platina, de aproximadamente 0,6 a 0,8 mm de diâmetro, exatamente do tamanho da prótese.
- Inserção da prótese: uma prótese de titânio é inserida no orifício da platina e fixada à bigorna com um gancho (clipe). A prótese assume a função do estribo, transmitindo vibrações da bigorna ao fluido coclear.
- Reposicionamento do tímpano: o tímpano é recolocado na posição original e a cirurgia está concluída.
O laser de CO₂ é uma ferramenta importante nessa cirurgia: permite fenestrar a platina com precisão milimétrica sem exercer pressão mecânica sobre a cóclea, reduzindo o risco de surdez coclear.
Resultados e recuperação
A maioria dos pacientes começa a notar melhora auditiva ainda no pós-operatório imediato, quando o ouvido ainda está com curativo. A melhora plena é avaliada pela audiometria realizada 3 a 6 meses após a cirurgia.
- Taxa de fechamento do gap aéreo-ósseo para menos de 10 dB (resultado considerado excelente): superior a 90% em cirurgião experiente.
- Alta hospitalar no mesmo dia ou no dia seguinte à cirurgia.
- Retorno ao trabalho de escritório em 1 a 2 semanas.
- Restrição a esforços físicos intensos por 3 a 4 semanas.
- Evitar variações bruscas de pressão (mergulho, alpinismo) por pelo menos 3 meses.
- Tontura transitória nos primeiros dias, esperada e passageira.
Estapedectomia em Belo Horizonte: expertise que faz diferença
A estapedectomia exige precisão em escala submilimétrica. Uma perfuração ligeiramente deslocada na platina, um clipe mal posicionado na bigorna ou pressão excessiva sobre a cóclea podem resultar em surdez permanente. É uma das cirurgias em que a experiência do cirurgião tem impacto direto e comprovado nos resultados.
A Dra. Mariana Castro Denaro realiza a estapedectomia em Belo Horizonte com formação otológica de alto nível, UFMG e fellowship na Fundação FISH (Suíça), e volume cirúrgico consistente ao longo de mais de 20 anos de prática especializada. Seu consultório na Rua Padre Rolim, 515, 8º andar, Santa Efigênia, oferece a estrutura necessária para avaliação diagnóstica completa em Belo Horizonte.
Para conhecer outras cirurgias realizadas pela Dra. Mariana, consulte as páginas sobre timpanoplastia, cirurgia de colesteatoma e o hub completo de cirurgias de ouvido em Belo Horizonte.
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Agendar pelo WhatsAppPerguntas frequentes
O que é otosclerose e quem é mais afetado?
Otosclerose é uma doença do metabolismo ósseo que afeta especificamente o osso temporal (onde fica o ouvido). O processo anormal de remodelação óssea leva à formação de osso esponjoso ao redor da janela oval, onde o estribo se apoia para transmitir vibrações ao ouvido interno. Com o tempo, esse osso anormal fixa o estribo, que deveria vibrar livremente. O resultado é uma perda auditiva progressiva de condução. A otosclerose afeta principalmente adultos jovens entre 20 e 40 anos, tem forte componente genético (transmissão autossômica dominante com penetrância variável), é mais comum em mulheres e frequentemente bilateral, embora nem sempre simétrica. A gestação pode acelerar a progressão da perda auditiva.
Como a otosclerose é diagnosticada?
O diagnóstico baseia-se na combinação de dados clínicos e exames específicos. Na audiometria tonal, observa-se um padrão característico chamado entalhadura de Carhart, uma queda específica em 2000 Hz que, apesar de parecer sensorineural, é artefato mecânico da fixação do estribo. A imitanciometria mostra curva timpanométrica do tipo As (baixa complacência) e ausência de reflexos acústicos ipsi e contralateral, sinal que tem alto valor diagnóstico. A tomografia computadorizada dos ossos temporais pode revelar área de hipodensidade ao redor da janela oval (halo duplo), especialmente nos estágios iniciais. Otoscopia é normal, o tímpano está íntegro.
Qual é a diferença entre estapedectomia e estapedotomia?
Ambas são cirurgias para tratar a otosclerose, mas diferem na abordagem ao estribo. Na estapedectomia clássica, o estribo é removido inteiramente e substituído por uma prótese apoiada na janela oval, sobre enxerto de gordura ou fáscia. Na estapedotomia (técnica mais moderna e amplamente utilizada atualmente), faz-se apenas um pequeno orifício (fenestra) na platina do estribo, sem remover toda a estrutura, e insere-se uma prótese de titânio nesse orifício, com o outro extremo fixado na bigorna. A estapedotomia preserva mais a estrutura natural e tem resultados muito similares com menor risco de complicações.
Qual é o risco de surdez com a estapedectomia?
Em mãos experientes, o risco de surdez permanente (surdez coclear) pela cirurgia é muito baixo, em torno de 1% ou menos. A taxa de melhora auditiva significativa supera 90%. É importante entender que a otosclerose, se não tratada, leva progressivamente à surdez de condução cada vez maior e, eventualmente, pode comprometer o ouvido interno (otosclerose coclear), causando componente neurossensorial irreversível. Assim, o risco cirúrgico, baixo em cirurgião experiente, deve ser comparado ao risco da progressão natural da doença sem tratamento.
Posso usar aparelho auditivo em vez de operar a otosclerose?
Sim. O aparelho auditivo é uma alternativa válida, especialmente para pacientes que preferem não se submeter à cirurgia, que têm contraindicações cirúrgicas ou que têm otosclerose bilateral e optam por operar um ouvido e usar aparelho no outro. O aparelho melhora a audição sem resolver a causa da doença, ou seja, o estribo continua fixando e a otosclerose progride. Também existe evidência (ainda não conclusiva) de que o flúor de sódio pode retardar a progressão da otosclerose coclear. A escolha entre cirurgia e aparelho deve ser discutida individualmente com a Dra. Mariana, levando em conta o grau da perda, a idade, a presença de componente neurossensorial e as preferências do paciente.
Fontes e referências
- Lippy WH, Berenholz LP. Otosclerosis and Stapedectomy. Otolaryngol Clin North Am. 2018.
- American Academy of Otolaryngology – ENT Health: Otosclerosis
- Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (SBOCF)
- Cureoglu S, Schachern PA, Paparella MM. Cochlear changes in otosclerosis. Otolaryngol Head Neck Surg. 2006.
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