A audiometria é o exame fundamental para avaliar a saúde auditiva, e o ponto de partida para qualquer decisão clínica sobre a audição, seja para diagnóstico de perda auditiva, indicação de aparelho auditivo, planejamento cirúrgico ou monitoramento de condições progressivas. Em Belo Horizonte, a Dra. Mariana Castro Denaro, CRM-MG 41585 | RQE 15387, otorrinolaringologista com mais de 20 anos de experiência em otologia e mais de 15.500 pacientes atendidos, interpreta a bateria audiológica completa dentro do contexto clínico de cada paciente, integrando os resultados ao exame físico e à história clínica para um diagnóstico preciso.
Muitos pacientes chegam ao consultório da Santa Efigênia com um audiograma em mãos, mas sem entender o que os números significam, ou sem saber quais exames audiológicos ainda precisam ser feitos para completar a avaliação. Este guia explica cada componente da avaliação audiológica, quando cada exame é indicado e o que esperar de cada um.
| Exame | O que avalia | Depende da resposta do paciente? | Indicação principal |
|---|---|---|---|
| Audiometria tonal | Limiares auditivos por frequência (grau e tipo de perda) | Sim (subjetivo) | Avaliação de base da audição |
| Logoaudiometria (vocal) | Capacidade de detectar e compreender a fala | Sim (subjetivo) | Indicação de aparelho auditivo e implante coclear |
| Imitanciometria | Mobilidade do tímpano e reflexos do ouvido médio | Não (objetivo) | Otite com efusão, disfunção tubária, otosclerose |
| EOA (emissões otoacústicas) | Função das células ciliadas externas da cóclea | Não (objetivo) | Triagem neonatal e monitoramento de ototoxicidade |
| BERA / PEATE | Resposta elétrica do nervo auditivo e tronco encefálico | Não (objetivo) | Bebês, suspeita de lesão retrococlear |
Audiometria tonal liminar: o mapa da sua audição
A audiometria tonal liminar é o exame central de qualquer avaliação auditiva. Realizada em cabine acústica com isolamento sonoro, o paciente usa fones auriculares e é instruído a sinalizar sempre que ouvir um tom, mesmo que muito fraco. O examinador vai ajustando a intensidade progressivamente até encontrar o limiar auditivo em cada frequência: o menor volume em que o som é percebido em 50% das apresentações.
As frequências testadas vão de 250 Hz (sons graves, como o ronco de um motor) a 8.000 Hz (sons agudos, como o pio de um pássaro). As frequências de maior importância para a compreensão da fala ficam entre 500 e 4.000 Hz, e é nessa faixa que perdas auditivas impactam mais o dia a dia. O resultado é registrado no audiograma, um gráfico que se torna o "mapa" da audição do paciente, com cada orelha representada separadamente (convencionalmente: orelha direita com círculos e linha vermelha, orelha esquerda com x e linha azul).
A classificação do grau de perda auditiva é padronizada pela OMS:
- Normal: limiares de 0 a 25 dB em todas as frequências;
- Perda leve: 26 a 40 dB, dificuldade em ambientes ruidosos e com fala fraca;
- Perda moderada: 41 a 60 dB, dificuldade mesmo em conversas normais, voz em intensidade comum;
- Perda severa: 61 a 80 dB, só ouve fala em voz alta ou gritos próximos;
- Perda profunda: acima de 81 dB, não percebe fala; pode ouvir apenas sons muito intensos como música amplificada ou motores.
Via aérea e via óssea: como diferenciar os tipos de surdez
A audiometria tonal avalia os limiares por duas vias:
- Via aérea (fones auriculares): o som percorre o canal auditivo externo → tímpano → ossículos → cóclea → nervo auditivo. Avalia todo o sistema auditivo, do canal ao nervo.
- Via óssea (vibrador posicionado no osso mastóide): o som é transmitido diretamente pelo osso do crânio até a cóclea, contornando o ouvido externo e médio. Avalia somente o ouvido interno e o nervo.
Comparando as duas curvas, o especialista determina onde está o problema:
- Perda condutiva: via aérea alterada, via óssea normal → o ouvido interno está saudável, mas o som não chega até ele. O problema está no canal auditivo externo (cerume, otite externa) ou no ouvido médio (otite com efusão, perfuração do tímpano, otosclerose). Geralmente tratável cirurgicamente ou clinicamente.
- Perda neurossensorial: ambas as vias comprometidas e paralelas → dano no ouvido interno (cóclea) ou nervo auditivo. Causas: presbiacusia, perda auditiva por ruído, ototoxicidade, doenças autoimunes do ouvido interno. Irreversível na maioria dos casos, reabilitação com aparelho auditivo ou implante coclear.
- Perda mista: componente condutivo (gap entre as curvas) somado a comprometimento da via óssea, frequente em otite crônica com colesteatoma, otosclerose avançada ou timpanoplastia com história de supuração crônica.
Logoaudiometria: entendendo a fala, não apenas os tons
A audiometria tonal diz o que o paciente ouve em termos de tom e volume. A logoaudiometria (audiometria de fala) diz o que o paciente entende quando ouve palavras, e essa distinção é clinicamente fundamental.
O exame apresenta listas de palavras padronizadas em diferentes intensidades. Os dois índices principais são:
- SRT (Speech Recognition Threshold): a intensidade mínima em que o paciente consegue reconhecer 50% das palavras apresentadas. Deve estar próximo à média dos limiares tonais, se houver discrepância significativa, isso levanta suspeita de alteração retrococlear ou simulação.
- IPRF/IRF (Índice de Reconhecimento de Fala): percentual de acerto na repetição de palavras apresentadas em intensidade confortável (geralmente 40 dB acima do SRT). Um IPRF acima de 88% é considerado bom e indica boa perspectiva de benefício com aparelho auditivo. IPRFs muito baixos podem indicar neuropatia auditiva ou lesão retrococlear, casos em que apenas amplificar o som não resolve o problema de compreensão.
Imitanciometria: avaliando o ouvido médio objetivamente
A imitanciometria é um conjunto de exames objetivos que avalia a integridade mecânica do ouvido médio. É completamente objetivo, não depende de nenhuma resposta ou colaboração do paciente, e por isso é especialmente útil em crianças pequenas, pacientes não colaborativos e na avaliação pré-operatória.
Timpanometria: um probe é inserido no canal auditivo e varia a pressão de ar enquanto emite um tom de sonda. A resistência do tímpano a essa variação de pressão é medida e registrada como uma curva:
- Curva tipo A: formato de pico simétrico, tímpano e ouvido médio normais;
- Curva tipo As (shallow): pico baixo, tímpano rígido, sugestivo de otosclerose;
- Curva tipo Ad (deep): pico muito alto, tímpano flácido, sugestivo de descontinuidade ossicular;
- Curva tipo B: plana, sem pico, tímpano imóvel. Indica líquido no ouvido médio (otite com efusão) ou perfuração timpânica;
- Curva tipo C: pico deslocado para pressões negativas, disfunção tubária com pressão negativa no ouvido médio.
Reflexo acústico estapediano: avalia a contração reflexa do músculo estapédio (ligado ao estribo) em resposta a sons intensos. Sua ausência ou alteração pode indicar paralisia facial (VII nervo), patologia do ouvido médio, ou lesão do VIII nervo. Útil no diagnóstico diferencial de zumbido unilateral com suspeita de schwannoma vestibular (neuroma do acústico).
EOA e BERA: quando é necessário ir além da audiometria convencional
As Emissões Otoacústicas (EOA) são sons produzidos pelas próprias células ciliadas externas da cóclea em resposta a um estímulo sonoro, uma espécie de "eco" do ouvido interno. São captadas por um microfone sensível inserido no canal auditivo. Estão presentes quando as células ciliadas externas estão funcionando normalmente e ausentes quando há dano coclear. São o exame de escolha para triagem auditiva neonatal (veja mais em triagem auditiva neonatal em BH) e para monitoramento em pacientes usando medicamentos ototóxicos, pois detectam dano coclear precoce antes que a audiometria convencional mostre alteração.
O BERA/ABR (Brainstem Auditory Evoked Response) avalia a resposta elétrica do nervo auditivo e do tronco encefálico a estímulos sonoros, por meio de eletrodos de superfície. É o único exame auditivo completamente objetivo e independente de colaboração, fundamental para avaliação de bebês, crianças pequenas, pacientes simulando perda auditiva e investigação de lesões retrococleares (como o schwannoma vestibular, que compressa o nervo auditivo e altera as latências do BERA). Em casos de tontura com suspeita de lesão retroclear, o BERA complementa a investigação.
Quando fazer audiometria: indicações por grupo de risco
A audiometria não é só para quem "já está surdo". As principais situações que indicam avaliação audiológica incluem:
- Percepção de redução na audição, especialmente se unilateral, súbita ou progressiva;
- Dificuldade de compreender fala em ambientes ruidosos, frequentemente o primeiro sintoma funcional de perda auditiva nas frequências altas;
- Zumbido (tinnitus) novo, a audiometria avalia se há perda auditiva subjacente associada ao zumbido;
- Exposição a ruído ocupacional, audiometria periódica obrigatória pela NR-7;
- Uso de medicamentos ototóxicos, cisplatina, carboplatina, aminoglicosídeos, furosemida em altas doses;
- Idade acima de 50 anos, rastreamento anual para presbiacusia;
- Crianças com atraso de fala, otites recorrentes ou suspeita de perda auditiva;
- Pré-operatório e pós-operatório de cirurgias de ouvido, timpanoplastia, estapedectomia, implante coclear;
- Tontura com suspeita de origem labiríntica, a audiometria faz parte da investigação vestibular.
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A Dra. Mariana Castro Denaro, CRM-MG 41585 | RQE 15387, Fellow da Fundação FISH (Suíça), Coordenadora do Programa de Implante Coclear do HC/UFMG e otorrinolaringologista com mais de 20 anos de experiência e 15.500 pacientes atendidos, realiza a interpretação clínica completa da bateria audiológica e orienta o melhor caminho de tratamento para cada caso. Consultório na Rua Padre Rolim 515, Santa Efigênia, Belo Horizonte.
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O que é audiometria tonal liminar e o que ela avalia?
A audiometria tonal liminar é o exame padrão para avaliação da audição. Realizada em cabine acústica por fonoaudiólogo, mede o menor volume (em decibéis, dB) que o paciente consegue ouvir em cada frequência sonora, testando tipicamente de 250 Hz (sons graves) a 8.000 Hz (sons agudos). Os resultados são registrados no audiograma, um gráfico com frequências no eixo horizontal e intensidades no eixo vertical. Considera-se audição normal quando todos os limiares estão em 25 dB ou menos. O exame é realizado por via aérea (fones auriculares) e via óssea (vibrador posicionado atrás da orelha), o que permite identificar se a perda é condutiva, neurossensorial ou mista.
Qual é a diferença entre os tipos de perda auditiva no audiograma?
O audiograma diferencia três tipos de perda: (1) Perda condutiva, os limiares por via aérea estão elevados (acima de 25 dB), mas os por via óssea são normais. Há um 'gap' entre as duas curvas. Indica problema no ouvido externo ou médio: cerume impactado, otite com efusão, perfuração do tímpano ou otosclerose. (2) Perda neurossensorial, ambas as vias (aérea e óssea) estão comprometidas e paralelas, sem gap. Indica dano à cóclea (célula ciliadas) ou ao nervo auditivo: presbiacusia, PAIR, ototoxicidade, surdez súbita. (3) Perda mista, componente condutivo e neurossensorial combinados, com gap e ambas as vias acima do normal. Comum em otite crônica com comprometimento coclear associado.
O que é logoaudiometria e por que é importante?
A logoaudiometria (ou audiometria de fala) é o complemento essencial da audiometria tonal. Enquanto a audiometria tonal avalia a sensibilidade para tons puros, a logoaudiometria avalia a capacidade de compreender a fala, que é, afinal, o objetivo funcional da audição. São testadas a intensidade mínima para detecção e reconhecimento de palavras (SRT, Speech Recognition Threshold) e a porcentagem de acerto na discriminação de palavras em intensidade confortável (IRF ou IPRF). Esse último índice é fundamental para indicação de aparelho auditivo e implante coclear: uma boa discriminação de fala indica melhor prognóstico com reabilitação auditiva.
O que é imitanciometria (timpanometria) e o que ela detecta?
A imitanciometria é um conjunto de medidas objetivas da função do ouvido médio, não depende da resposta subjetiva do paciente. Inclui: (1) Timpanometria, mede a mobilidade do tímpano sob variações de pressão de ar. A curva resultante (tipo A = normal; tipo B = tímpano imóvel, sugere líquido ou perfuração; tipo C = pressão negativa, sugere disfunção tubária) fornece informações cruciais sobre o ouvido médio. (2) Reflexo acústico, avalia a contração do músculo estapédio em resposta a sons intensos, testando a integridade do nervo facial (VII par) e do nervo auditivo (VIII par). A imitanciometria é indispensável no diagnóstico diferencial de otite com efusão, otosclerose e neuropatias auditivas.
Quando é necessário fazer o BERA (Potencial Evocado Auditivo)?
O BERA (Brainstem Auditory Evoked Response), também chamado PEATE, é indicado quando a avaliação comportamental não é possível ou confiável: bebês e crianças pequenas que não cooperam com audiometria convencional; triagem neonatal com resultado alterado; suspeita de neuropatia auditiva (cóclea normal mas nervo comprometido); investigação de schwannoma vestibular (neuroma do acústico) unilateral; e simulação ou exagero de perda auditiva (hipoacusia funcional). O BERA é um exame objetivo: o paciente não precisa responder, apenas eletrodos de superfície medem a atividade elétrica do nervo auditivo e do tronco encefálico em resposta a cliques sonoros.
Com que frequência devo fazer audiometria?
Para adultos sem fatores de risco, o consenso é: uma audiometria de referência antes dos 50 anos e avaliação anual a partir dessa idade, pois a presbiacusia (perda progressiva pelo envelhecimento) tende a se instalar. Grupos que devem fazer audiometria com maior frequência: trabalhadores expostos a ruído ocupacional (audiometria ocupacional periódica semestral ou anual, conforme NR-7); pacientes em uso de medicamentos ototóxicos (cisplatina, aminoglicosídeos, altas doses de furosemida), monitoramento antes, durante e após o tratamento; pacientes com histórico de surdez súbita ou flutuante; crianças com histórico de otite de repetição e atraso de fala; e qualquer pessoa que note mudança na audição ou surgimento de zumbido.
Fontes e referências
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