Durante décadas, a surdez foi tratada como um problema isolado de qualidade de vida: "você ouve menos, mas vive normalmente". A ciência dos últimos 15 anos destruiu essa concepção. Hoje sabemos, com evidências de nível A, que a perda auditiva não tratada é o maior fator de risco modificável para o desenvolvimento de demência, superando hipertensão arterial, diabetes e depressão nesse ranking de risco atribuível. Em Belo Horizonte, a Dra. Mariana Castro Denaro, otorrinolaringologista especialista em ouvido com CRM-MG 41585 e RQE 15387, incorporou essa perspectiva ao seu atendimento: tratar a surdez é também cuidar do cérebro.
Este conteúdo reúne o que há de mais atual na ciência sobre a conexão entre audição e cognição, com implicações práticas para qualquer pessoa acima dos 50 anos (ou com familiar idoso) em Belo Horizonte.
O que a Lancet Commission diz sobre surdez e demência
A Lancet Commission on Dementia Prevention, Intervention, and Care é o painel científico mais influente do mundo sobre prevenção de demência. Em 2020 e novamente em 2024, a Comissão identificou 14 fatores de risco modificáveis para demência e colocou a perda auditiva no topo da lista, responsável por aproximadamente 8% dos casos globais de demência atribuíveis a causas modificáveis.
Para contextualizar: isso significa que, globalmente, cerca de 8 em cada 100 casos de demência poderiam ser prevenidos ou retardados se a surdez fosse tratada adequadamente. Em números absolutos, com 57 milhões de pessoas com demência no mundo, estamos falando de quase 4,5 milhões de casos que teriam conexão com surdez não tratada. É um dado que não pode ser ignorado.
| Grau de perda auditiva | Média em dB | Risco de demência vs. audição normal | Intervenção recomendada |
|---|---|---|---|
| Normal | Até 25 dB | Risco basal (referência) | Prevenção: proteção contra ruído e audiometria periódica |
| Leve | 26–40 dB | 2 vezes maior (aproximadamente +100%) | Aparelho auditivo e acompanhamento cognitivo |
| Moderada | 41–70 dB | 3 vezes maior (aproximadamente +200%) | Aparelho auditivo de alta performance + reabilitação fonoaudiológica |
| Severa a profunda | Acima de 70 dB | Até 5 vezes maior (aproximadamente +400%) | Avaliar implante coclear e estimulação auditiva intensiva |
Os quatro mecanismos que explicam a conexão
A relação entre surdez e demência não é casual: ela tem bases fisiopatológicas bem estabelecidas, com quatro mecanismos principais identificados:
- Esforço cognitivo aumentado (cognitive load): quando se ouve com dificuldade, o cérebro precisa recrutar recursos cognitivos adicionais (atenção, memória de trabalho, função executiva) apenas para decodificar o que está sendo dito. Esse "esforço extra" consome recursos que deveriam estar disponíveis para outras funções cognitivas, acelerando o declínio.
- Privação sensorial e atrofia cerebral: o cérebro funciona pelo princípio "use ou perca". As áreas do córtex temporal dedicadas ao processamento auditivo (especialmente o plano temporal e a área de Wernicke) sofrem atrofia progressiva quando privadas de estimulação sonora adequada. Estudos de neuroimagem com ressonância magnética documentam essa redução de volume em pessoas com surdez não tratada.
- Isolamento social: quem ouve mal tende, de forma progressiva e quase imperceptível, a se isolar. Deixa de participar de reuniões familiares, de conversas em grupo, de atividades sociais, porque o esforço para acompanhar é exaustivo e frequentemente humilhante. O isolamento social é, por si só, um fator de risco bem documentado para depressão e demência.
- Patologia compartilhada: algumas condições (como hipertensão arterial, diabetes e aterosclerose) danificam simultaneamente os vasos do ouvido interno (causando perda auditiva neurossensorial) e os vasos cerebrais (contribuindo para demência vascular). A surdez pode ser, nesses casos, um marcador precoce de doença cerebrovascular.
O estudo ACHIEVE: a primeira prova clínica definitiva
Até 2023, os dados sobre surdez e demência eram todos observacionais: estudos que acompanhavam populações ao longo do tempo e identificavam correlações, mas não podiam provar causalidade. O estudo ACHIEVE (Aging and Cognitive Health Evaluation in Elders), publicado na prestigiosa revista Lancet em julho de 2023, veio preencher essa lacuna.
O ACHIEVE foi um ensaio clínico randomizado, o padrão-ouro da medicina baseada em evidências. Ele randomizou 977 adultos entre 70 e 84 anos com perda auditiva para dois grupos: intervenção auditiva (aparelho auditivo + aconselhamento) ou educação em saúde geral (grupo controle). Após 3 anos de acompanhamento, o resultado geral não atingiu significância estatística para toda a população, mas na análise pré-especificada do subgrupo de maior risco (adultos com múltiplos fatores de risco cardiovascular e cognitivo), o grupo que recebeu aparelhos auditivos teve 48% menos declínio cognitivo.
A conclusão prática é clara: tratar a surdez em pessoas de alto risco para demência tem impacto real e mensurável na trajetória cognitiva. É, provavelmente, a intervenção preventiva de maior custo-benefício disponível para demência hoje.
Checklist: sinais de que a surdez pode estar afetando a cognição
Muitas famílias confundem os efeitos da surdez com os primeiros sinais de demência. Antes de concluir que um familiar idoso está "esquecendo" ou "perdendo o juízo", verifique se ele pode estar simplesmente não ouvindo bem:
- Pede para repetir com frequência, especialmente em ambientes com ruído.
- Aumentou muito o volume da televisão nos últimos meses.
- Não entende conversas ao telefone e reclama que o telefone está com defeito.
- Parece "distraído" ou "desinteressado" em conversas em grupo.
- Responde "fora de contexto", com uma resposta completamente diferente da pergunta feita.
- Evita eventos sociais, festas, restaurantes, lugares que antes frequentava com prazer.
- Ficou mais isolado, calado ou depressivo nos últimos anos.
- Não ouve a campainha, o telefone tocando ou o alarme do relógio.
Se você reconheceu 3 ou mais desses sinais em um familiar, a primeira providência é uma audiometria, não uma avaliação neurológica. Com frequência, o que parece declínio cognitivo é surdez não diagnosticada e não tratada.
Avaliação auditiva para saúde cognitiva em Belo Horizonte
A Dra. Mariana Castro Denaro realiza avaliação auditiva completa para adultos e idosos em BH, com foco não apenas na reabilitação auditiva, mas também na perspectiva da saúde cognitiva de longo prazo. O protocolo de avaliação inclui:
- Audiometria tonal e vocal: quantifica o grau e o tipo de perda auditiva (condutiva, neurossensorial ou mista) e avalia a inteligibilidade de fala, dado essencial para prognóstico com aparelho auditivo.
- Imitanciometria: avalia o ouvido médio e o reflexo estapediano, complementando a audiometria.
- Otoscopia: descarta causas tratáveis de surdez condutiva (rolha de cerume, perfuração do tímpano, otite com efusão).
- Orientação sobre reabilitação: indicação de aparelho auditivo quando necessário, com encaminhamento a fonoaudiólogos parceiros especializados em adaptação de próteses auditivas.
- Avaliação de indicação de implante coclear: para os casos em que o aparelho auditivo não oferece benefício suficiente. A Dra. Mariana integra a equipe do HC/UFMG para esse procedimento.
Para entender mais sobre os graus de perda auditiva e as opções de tratamento, acesse também a página sobre perda de audição em adultos e sobre o implante coclear para surdez profunda.
A mensagem mais importante: não existe "surdez normal da idade"
Por décadas, a perda auditiva progressiva associada ao envelhecimento (chamada presbiacusia) foi naturalizada: "é normal ouvir menos com a idade, todo mundo fica assim". Essa normalização foi um erro coletivo com consequências cognitivas sérias para milhões de pessoas.
Sim, a presbiacusia é comum e esperada com o envelhecimento, mas isso não significa que deva ser aceita passivamente. Não aceitamos hipertensão ou diabetes como "normais da idade" sem tratá-los. Da mesma forma, a perda auditiva deve ser diagnosticada, quantificada e tratada (com aparelho auditivo, implante coclear ou outros recursos conforme cada caso) não apenas para ouvir melhor, mas para proteger o cérebro.
Se você ou um familiar em Belo Horizonte ou na região metropolitana tem acima de 50 anos e nunca fez uma audiometria, este é o momento. O consultório da Dra. Mariana fica na Rua Padre Rolim, 515, Sala 805, no bairro Santa Efigênia, BH. Agendamento pelo WhatsApp (31) 98263-5215.
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Proteja sua audição e sua cognição. A Dra. Mariana Castro Denaro realiza avaliação auditiva completa em Belo Horizonte, com foco na saúde do ouvido e na prevenção do declínio cognitivo. Atendimento no Santa Efigênia, com agendamento pelo WhatsApp.
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Qual é a evidência científica que liga surdez à demência?
A evidência é sólida e crescente. O estudo mais citado é o de Frank Lin e colaboradores na Johns Hopkins University, que acompanhou mais de 1.900 adultos por até 18 anos e demonstrou que pessoas com perda auditiva leve têm o dobro do risco de desenvolver demência; perda moderada, três vezes mais; e perda severa, cinco vezes mais risco comparado a pessoas com audição normal. A Lancet Commission on Dementia (o painel científico mais influente sobre prevenção de demência) classificou a perda auditiva como o maior fator de risco modificável individual, responsável por aproximadamente 8% de todos os casos de demência. E o estudo ACHIEVE, publicado na revista Lancet em 2023, foi o primeiro ensaio clínico randomizado a demonstrar que o uso de aparelhos auditivos, associado a intervenção cognitiva, reduziu o declínio cognitivo em adultos de alto risco.
Por que a surdez aumenta o risco de demência?
Os pesquisadores identificaram quatro mecanismos principais. Primeiro, o esforço cognitivo: quando se ouve mal, o cérebro gasta recursos cognitivos extras para tentar completar e interpretar os sons, recursos que deixam de estar disponíveis para memória, atenção e raciocínio. Segundo, a privação de estimulação auditiva: as áreas cerebrais dedicadas ao processamento de sons ficam subativadas e sofrem atrofia progressiva por falta de uso, seguindo o mesmo princípio de 'use ou perca' que se aplica a qualquer função cerebral. Terceiro, o isolamento social: quem ouve mal tende a evitar conversas, reuniões e ambientes ruidosos, e o isolamento social é por si só um fator de risco bem documentado para demência. Quarto, mudanças estruturais cerebrais: estudos de neuroimagem mostram redução do volume de áreas auditivas do córtex temporal em pessoas com surdez não tratada.
Tratar a surdez realmente ajuda a prevenir demência?
Sim, e essa é a boa notícia central desta área. O estudo ACHIEVE (Aging and Cognitive Health Evaluation in Elders), publicado na Lancet em 2023, randomizou adultos entre 70 e 84 anos com perda auditiva para receber aparelho auditivo ou educação em saúde. No subgrupo de maior risco cardiovascular e cognitivo, o uso de aparelho auditivo reduziu em 48% o declínio cognitivo ao longo de 3 anos. Outros estudos de coorte mostram que idosos que usam aparelhos auditivos têm menor incidência de demência do que os que têm surdez não tratada. A mensagem é clara: tratar a surdez não é apenas qualidade de vida, é medicina preventiva para o cérebro.
A partir de qual grau de perda auditiva já há risco para a cognição?
O risco começa já na perda leve (perda média entre 26 e 40 dB). Nesse grau, muitas pessoas ainda não percebem dificuldade significativa no dia a dia: conseguem ouvir conversas normais, mas perdem detalhes em ambientes ruidosos ou ao telefone. E já nesse estágio, o risco de demência é o dobro do normal. Isso reforça a importância de realizar audiometria periódica a partir dos 50 anos, mesmo sem queixa auditiva clara, e de tratar proativamente a surdez mesmo quando a pessoa 'se vira bem'.
Quem deve fazer avaliação auditiva pensando em saúde cognitiva?
Todos os adultos acima de 50 anos devem fazer audiometria de rastreio, mesmo sem queixa auditiva. Mas os grupos prioritários são: idosos acima de 65 anos (a prevalência de perda auditiva é de 1 em cada 3 nessa faixa); pessoas com histórico familiar de demência ou Alzheimer; pacientes com fatores de risco cardiovasculares (hipertensão, diabetes, tabagismo), que também são fatores de risco para surdez; e qualquer pessoa que relata que 'os outros é que falam baixo', que precisa aumentar o volume da TV ou que evita reuniões sociais porque não consegue acompanhar as conversas.
Aparelho auditivo ou implante coclear: qual é melhor para prevenir demência?
Ambos tratam a perda auditiva e, portanto, potencialmente reduzem o risco cognitivo. Para perdas leves a severas, o aparelho auditivo (AASI) é o tratamento de primeira linha: moderno, discreto e muito eficaz. Para perdas profundas bilaterais em que o aparelho auditivo não oferece benefício suficiente, o implante coclear é a indicação, e há estudos preliminares mostrando que o implante coclear em idosos com surdez profunda melhora parâmetros cognitivos e de qualidade de vida. A decisão deve ser feita com um especialista em ouvido que avalie o grau de perda, a inteligibilidade de fala residual e as expectativas do paciente.
Fontes e referências
- Lancet Commission on Dementia Prevention, Intervention, and Care (2024 Update)
- ACHIEVE Trial – Hearing Intervention versus Health Education Control to Reduce Cognitive Decline (Lancet, 2023)
- NIH/NIDCD – Hearing Loss and Cognitive Decline
- OMS – World Report on Hearing (2021)
- Sociedade Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (SBOCF)
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